Vida mundana

A questão, agora, é sobre essa assim chamada “vida mundana”. Como conciliar essa assim chamada “vida mundana” com o trabalho da Autorrealização ou da Realização de Deus? Essa é uma outra questão que temos aqui.

Veja, essa divisão entre vida mundana e não mundana é algo muito artificial. Eu chamaria de “mundanidade” estar identificado com a mente egoica. Isso, basicamente, é mundanidade. Não tem nada a ver com tarefas ou atividades no mundo. Então, há essa ideia, existe essa crença, de que para Realizar Deus, para realizar um trabalho nessa direção, você tem que conciliar essa assim chamada “vida mundana” com esse trabalho.

O que eu estou dizendo aqui é que não existe nenhuma separação entre qualquer atividade externa, qualquer atividade no mundo, e o trabalho em si de Autorrealização, que basicamente é a observação do movimento da mente egoica dentro de você. Isso não tem nada a ver com o afastamento de atividades externas.

Aqui, a coisa básica é estar cônscio de si, de si mesmo, é se tornar ciente de todo esse movimento interno, de todo esse movimento da mente, e isso não tem nada a ver com atividades externas, com atividades no mundo. Você pode desempenhar todas as atividades, estar ocupado com qualquer trabalho, com qualquer ocupação externa e, ao mesmo, cônscio, ciente, de todo e qualquer movimento dentro de você.

Então, quando, por exemplo, eu falo sobre a importância da Meditação, estou falando exatamente sobre isso. Se você está dirigindo um carro, se você está caminhando, se você está ocupado com uma tarefa de escrever alguma coisa ou em qualquer uma outra atividade física, que você chamaria de “atividade mundana” – eu chamaria isso apenas de uma ação, uma ação da Vida, um acontecimento da Vida… Você pode estar muito bem atento a todo o movimento interno que se passa dentro de você.

Então, a Meditação é, basicamente, uma atividade, ou uma não atividade, silenciosa, uma constatação, uma observação daquilo que se passa, aqui e agora, dentro de você. Você não coloca identidade nessa observação. Você não coloca um experimentador nessa observação. Você não coloca alguém se ocupando, de uma forma positiva ou negativa, com essa observação. Você é apenas uma testemunha que observa o movimento da mente e não se identifica com esse movimento. E isso não tem nada, absolutamente, nada a ver com qualquer atividade ou tarefa externa, com a qual o corpo está ocupado. Então, não importa qual o tipo de trabalho você esteja fazendo ou com o que o corpo esteja ocupado naquele dado momento.

Então, quando você pergunta sobre como conciliar, eu não vejo por que exista qualquer necessidade de conciliação, porque uma coisa não está contra a outra, não há um contraste entre a Real Meditação e a ação ou a atividade do corpo. O corpo está ativo em suas tarefas, e você permanece nesta ciência da Verdade do que se passa, aqui e agora, dentro de você, se desidentificando dos pensamentos – o que é, basicamente, se desidentificar dos pensamentos. E essa é a única… o único trabalho real, única tarefa real a “ser feita”. Porque, na verdade, nada se faz nessa observação. A tarefa ou esse “fazer” é a constatação, sem dizer sim ou não àquilo que é observado.

Então, você não julga, você não compara, você não aceita, você não rejeita, você não luta contra aquilo que aparece, você apenas observa, você apenas se torna cônscio daquilo que vem. Repare: “daquilo que vem”, porque aquilo irá embora, enquanto você permanece como esta Consciência, sendo o que Você é, ou seja, uma testemunha, uma testemunha desse movimento. Então, não importa com o que o corpo esteja ocupado, não importa o que representa a sua vida externa, o que esteja acontecendo fisicamente no mundo à sua volta, ou com o que o seu corpo esteja ocupado.

Então, eu não vejo essa necessidade de conciliar, porque não existe nenhuma contradição entre esse Natural Estado de atenção sobre si mesmo – que é algo que acontece sem qualquer esforço, é apenas uma constatação do que se passa aqui e agora internamente – e toda e qualquer atividade física, toda e qualquer atividade externa. Então, não existe essa questão de mundano e não mundano.

Repetindo isso, mais uma vez, para você: a questão da mundanidade é a identificação com a mente egoica. Se você está se identificando constantemente com a mente egoica, você está perdido nessa mundanidade. Uma vez que você se desidentifique da mente egoica, não importa o quanto do mundo esteja aparecendo à sua volta e com que atividade você esteja ocupado.

Ok?

Janeiro de 2022
Gravatá – PE, Brasil