Mestre Gualberto

Autorrealização

Autorrealização, Iluminação ou Despertar são palavras que são usadas, geralmente, como sinônimos desse Estado livre da mente egoica, o que não tem nada a ver com a presença ou a ausência do corpo.

A Iluminação não é, necessariamente, o fim do sonho dessa aparição corpo-mente, mas é o fim da ilusão do sentido de separatividade. O que termina não é o corpo, é o sentido de separatividade. O corpo está bem no lugar dele. A mente, no sentido de memória, cognição, intelecto, também está bem no lugar dela. A única coisa que termina é o sentido de separatividade, que representa toda miséria, todo sofrimento, toda essa ilusão da ignorância, o que, na verdade, é pura fantasia!

A realidade de Deus é a não-separatividade, a não-dualidade. Dualidade, aqui, implica a ideia, a crença, a imaginação de um “eu” presente na experiência “corpo-mente-mundo”. Assim, existe o “eu” dentro do corpo, o mundo fora do corpo e o corpo como parte do mundo — essa é a dualidade. E, ainda, acima desse “eu” e do mundo está Deus. É só isso que termina. Nada mais muda! Você não se torna um ser especial, maravilhoso, com poderes miraculosos. Nada disso!

O corpo não é o problema, ele é só uma aparição, assim como à noite você tem a aparição do mundo no sonho e um corpo para viver isso. Esse corpo do sonho também não é você, porque logo que você acorda pela manhã, descobre que aquilo era só uma imaginação — tanto o seu corpo quanto o seu mundo no sonho. E olha que a experiência do sonho, para você, é muito real! Assim, você tem um corpo, tem um mundo e tem uma experiência neste mundo específico de sonho. Essa experiência é a experiência de um sonhador, e esse sonhador é só a ilusão de uma identidade presente no sonho.

A experiência de ser humano também é a mesma coisa. Na mente egoica, você se vê como um ser humano. Você vê pedras, animais, plantas, rios, mares, florestas, desertos, sol, lua, estrelas, tudo isso, como um ser humano, como algo separado de você, e isso está só na imaginação também, está só no movimento mágico da mente. Esse é o sentido de separatividade e é só isso que termina no Despertar, na Realização. Parece muito pouco, mas eu não sei se dá para aferir medidas disso. O fim da dualidade, que é o fim dessa separatividade, é o fim de todo esse “seu mundo”.

Participante: E quanto às experiências extraordinárias que nos contam?

Mestre Gualberto: Não são os sábios que contam essas experiências extraordinárias. Não há nenhuma experiência extraordinária no Despertar. O Despertar é o fim de todas as experiências. Enquanto houver um experimentador, haverá experiências, e quanto mais sutil e espiritual for o experimentador, mais sutis e mais espirituais serão suas experiências.

Participante: E os Satoris, Samadhis?

Mestre Gualberto: Satori é uma palavra Zen e, se você observar, você vai descobrir que, dentro do Zen, Satori é o fim da experiência, não é bem uma experiência. Samadhi também é o fim da experiência, não é uma experiência. Satori e Samadhi remetem ao seu Estado Natural. Nesse seu Estado Natural, Deus não é espiritual. Falo dessa Realidade Divina que é Você, em sua Natureza Real. Você é Deus, em sua Natureza Real, e isso não é espiritual; isso é bem natural. Não é ordinário, no sentido que empregamos essa palavra, não é algo comum, mas é bem natural.

O Estado livre da mente egoica, livre da mente separatista, dessa mente que divide, que compara, que avalia, que julga, que prejulga, que deseja, que teme o seu fim, podemos chamar de Satori ou Samadhi. Podem ocorrer relances, insights disso, mas se isso não se assenta no organismo, nesse mecanismo corpo-mente, passa a ser, também, só mais uma experiência, da qual a mente se recordará, se lembrará. Isso não é real nela, e aí o que ela faz? Ela relata isso como uma experiência. Ela só pode contar isso como uma experiência, mas esse não é o Despertar. No Despertar não existe mais o experimentador. Sem o experimentador, não há mais experiência, então não fica alguém para contar algo.

Quando Deus está, que é Consciência, Paz, Liberdade, Felicidade, Amor, não há experimentador. Isso é o fim desse “você” que você conhece.

Participante: Mestre, se o “eu” é ilusão, o que, ou quem, busca a autorrealização, a autotranscendência?

Mestre Gualberto: É uma boa pergunta que você precisa fazer para si mesmo: “Quem sou eu?” Se você entrar a fundo na investigação desse elemento que busca essa autorrealização ou transcendência, você vai descobrir que esse elemento não existe. Então, nos encontramos diante de um paradoxo. Essa é a beleza da Verdade!

Essa Consciência presente, sempre presente, não se importa com essa ilusão da separatividade, não reconhece isso como sendo real. Essa ilusão da separatividade, essa suposta entidade separada, não existe. Então, como ela pode buscar essa verdade do fim dela mesma? Logo, não há resposta para a pergunta “quem sou eu?”, mas há um fim para essa pergunta: o fim da ilusão de "alguém" para perguntar isso; o fim do perguntador. Aquele que faz a pergunta não é real, por isso não pode encontrar uma resposta, e aquele que faz a pergunta não tem a quem perguntar, então não há resposta para ser encontrada.

Essa autoinvestigação, na verdade, não é autoinvestigação; é só investigação, sem um investigador, sem nada para investigar. Na realidade, o mundo, ou a experiência “eu no mundo”, é só aparente. Essa é que é a chave! Não estamos lidando com a realidade, porque nós não existimos. A Realidade é que está lidando com tudo isso... Uma grande brincadeira cósmica! O Despertar revela isso. Tudo isso é uma grande brincadeira, um grande jogo Divino!