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Mestre Gualberto

O que é o Guru

Todos falam de um Guru interno, mas, na verdade, esse Guru interno é só mais uma crença. Esse Guru interno só é real quando ele desperta e aí está toda a dificuldade. A dificuldade é aceitar que isso só é possível através do contato com o Satguru externo.

É o Guru externo que desperta esse Guru interno. Sem o Guru externo, o interno é somente uma crença, como qualquer outra crença. O que estou dizendo é que todos precisam de um Guru externo, que, na realidade, é o mesmo Guru interno. Mas esse Guru interno só desperta em razão desse Guru externo, mesmo que esse Guru externo não assuma uma forma humana, como aconteceu com o próprio Ramana, mas esse é um caso raro. Esses casos são bastante raros. No caso de Ramana, a montanha de Arunachala era o seu Guru.

Aqui, toda dificuldade é que, quando nós tratamos desse assunto, podemos colocar isso do ponto de vista do Guru ou do ponto de vista do discípulo. Do ponto de vista do discípulo, existe o externo e o interno; do ponto de vista do Guru, só há o Satguru. Então, interno ou externo não aparecem mais. É bem interessante esse assunto, porque, no desejo que tem de dispensar qualquer autoridade, a mente vê, também, a figura do Guru como a figura de autoridade sobre ela. A natureza da mente egoica é a natureza da arrogância, pois ela assume a ilusão de poder controlar, de poder resolver sozinha. Mas a mente é basicamente inconsciência, sono; ela não tem nada, absolutamente nada a ver com o Guru, interno ou externo. O Guru é essa Consciência, essa Presença externa. Em razão da Graça do Guru, essa Consciência, esse Guru interno desperta. Então, o Guru sempre será necessário. A única necessidade é exatamente esse Guru, essa Consciência, essa Presença. O trabalho é único, é um só trabalho.

Não há separação entre o Guru externo e o Guru interno, mas, do ponto de vista daquele que acredita nisso, a Presença externa do Guru é algo essencial, porque não dá para ir além da mente na própria mente. A mente não consegue investigar a própria mente. O Guru externo é essa Consciência, é essa Presença na forma, e apenas a Consciência desperta. Assim, nesse contato, essa Consciência, que é o Guru na forma, desperta essa Consciência do discípulo... essa mesma Consciência no discípulo. Então, o trabalho tem início, e aí se pode falar de Guru interno. Antes disso é uma crença, uma bela crença, e toda crença é algo presente na mente; é parte da mente, é parte dessa inconsciência, é parte do sono – são apenas palavras, são apenas imaginações... Palavras que são pensamentos, que são imaginações.

É como a realidade de Deus, que, na mente, é só um conceito, um pensamento, uma crença e, portanto, só mais uma imaginação. Deus é real em seu Ser! Deus é real como Consciência, não como crença; como crença, é só imaginação. Assim é a questão do Guru, que é essa Consciência, que é Deus. O Guru só é real quando um trabalho está acontecendo. Quando um trabalho está acontecendo, o Guru interno é real. De outra forma, é como a crença em Deus, que é só mais uma crença, e uma crença não funciona.

Satsang significa estar em boa companhia, que é a companhia dessa Consciência, da Graça, do Guru. Se vocês pudessem resolver isso sozinhos, já teriam resolvido; não é assim que funciona. Se esse “sozinho” significasse Consciência, essa questão do fim da separatividade, do fim do sentido do “eu”, do ego, do “mim”, além de todo sofrimento, conflito e toda miséria atrelada a isso, já teria sido resolvida.

A mente pode acreditar em sua capacidade de realizar Isso, mas é só uma crença também; mais uma imaginação. Essa ação do Despertar, da Realização, é uma ação da Graça e, como uma ação da Graça, é uma ação da Consciência. Assim sendo, é uma ação de Deus, uma ação do Guru. Na Índia é muito claro isso – é o Guru quem concede esse Despertar. Hoje, há uma mensagem neoadvaita que circula por aí, que diz que você não precisa de um Guru, que você já é o Guru. No entanto, você vê que todos aqueles que realizaram Isso, de uma forma direta, real, e que depois compartilharam essa visão real da Verdade, a qual alguém chamaria de Advaita, estão sempre falando da importância do Guru, orando ao Guru, fazendo cânticos para Ele, banhando-se em Sua Graça, fazendo poemas para Ele, como aconteceu com Ramana, com Nisargadatta e muitos outros.

Na mente, nós temos a dificuldade de aceitar algo muito simples: que só há Um, e esse Um é essa única Consciência, Presença. Não importa se Ela se apresenta na forma de Marcos Gualberto, de Ramana Maharshi ou de Buda, porque a rendição a essa Presença é aquilo que acontece quando nos estendemos ao Guru, quando há essa rendição do “eu” ao Guru, desse “mim” ao Guru. A rendição é o abandono dessa ilusão da separação, dessa mente que julga, compara, avalia e que está cheia de conceitos e preconceitos, medos e desejos — é isso que entregamos, que rendemos, que soltamos diante dessa única Presença. Há somente essa única Presença, que é Você em sua Natureza Real! Só tem Você! É sempre isso! Só tem Você em seu Ser! Não tem pessoas aqui.

A mente, o corpo e o mundo aparecem nesta Consciência, que é Você em seu Ser. Tudo isso são objetos, enquanto que essa Consciência é a Realidade que experimenta tudo isso, que é o sujeito de todos esses objetos. Essa Consciência é o Guru. Só há essa Consciência.

Quando você diz "a pessoa", ou "eu", isto é apenas uma ilusão na qual acreditamos. Tudo está nessa imaginação. A única realidade é essa Consciência. Esse "eu" e esse "mim" são apenas crenças, pensamentos, objetos, para essa Consciência que experimenta isso. Essa Consciência é Aquilo que permanece só, sem qualquer objeto; é Nela que os objetos aparecem. Esse "mim", essa "pessoa", é também só um objeto, um pensamento, uma imaginação.